quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Memória vazia não traz felicidade

A memória sempre nos trai e nos leva para horizontes que jamais pisamos e de lá nos arremessa no precipício afora. Ela nos faz imaginar coisas que jamais vivemos, e somente quando comparamos as memórias nossas com a de outros que viveram o mesmo momento é que encontramos as diferenças. Nós criamos muitas vezes algo que não existiu exatamente daquela forma.

Então, será que tudo o que imaginamos ter ocorrido, não é mero fruto da transformação de nossos desejos? O primeiro beijo, o primeiro pedaço de bolo de chocolate, a primeira perda...será que são realmente daquela forma que nossa memória registrou com tanta força em nossa mente e em nosso coração?

Lembro-me de fatos recentes com dificuldade, parece que o tempo passa rápido demais, mas ao mesmo tempo não consigo registra-lo com tanta clareza como as memórias de passados mais antigos. Lembranças da infância, das descobertas, do vento no topo das arvores...lembro do primeiro amor, e sem saber o que tinha me atingido, não parava de pensar na menina que nem sabia o nome. Parecia uma doença, um vírus que havia me contaminado, e sem saber a cura, apenas sonhava com um beijo, um toque, um trocar de palavras, para que pudesse ouvir sua doce voz.

O tempo passou e outros amores chegaram, um beijo escondido,  outro roubado, outro perdido para sempre. Quer maior saudade do que o beijo que você nunca se teve, da boca que jamais tocou, da pele que jamais sentiu? Sim, o desejo é o criador supremo da saudade de algo que jamais aconteceu.

Nisso retomo a questão da memória, que mistura esse desejo inexistente com a realidade longínqua  e dai não sabemos direito o que foi tocado ou apenas imaginado tocar. Somos falsetes que idealizam momentos únicos. Quantas vezes você não desejou estar perto de alguém, apenas para roubar um naco de perfume, um toque involuntário de pernas, um suspiro suave, que perto do ouvido marcou para sempre sua imaginação.

Pequenos e deliciosos momentos, que sexo, drogas ou dinheiro algum pode  fazer acontecer ou trazer de volta.

Viver feliz é um pouco disso, garimpar sensações sinceras, guardando no depósito da alma para poder usar nos momento de dor, de solidão e abandono. É fazer como o camelo, que tem sua reserva de gordura para momentos de falta, e dela se alimenta para não perecer no calor do deserto.

Existem momentos que estamos nesse deserto, mesmo que rodeados de festa e falsa alegria. Nesses momentos quero beber da corcova da memória, que um dia guardei com carinho e que para sempre há de me alimentar da mais pura felicidade.








terça-feira, 27 de novembro de 2012

Toque

Um toque seu e lá se vão minhas dores
a memória se renova
e já não sofro mais

Um toque seu e a verdade da vida
soa como sino em 
dia de festa

Um toque seu e o passado outrora triste
revive apenas aquilo que vale
a pena lembrar

Um toque seu e já sou eterno 
no vale da esperança
onde nada jamais ira perecer

Um leve toque de seus dedinhos
e a felicidade do amor
preenche cada poro desse velho pai !!


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Juro



Juro
Não dizer “te amo” antes da hora
Pois pela hora que tenho
Sois amor sempre

Juro
Não pedir sua mão
Enquanto meu coração
Não sintonizar com o seu

Juro
Não te abandonar a alma
Mesmo que o corpo
Possa estar ausente

Juro
Para sempre amar
Sem medo
Da despedida


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Rota da vida

Não são as palavras que escrevo
nem os filmes que assisto
muito menos os passos de meu dançar


A jornada é feita
aceita e desenhada
por eu sempre amar

As lembranças,
as dores,
os caminhos por andar

Viver é isso, tomar para si
cada linha de um roteiro
que jamais saberemos como irá terminar.





sábado, 17 de novembro de 2012

Verdade seja dita

Verdadeiro nas ações e transparente nos pensamentos
num mundo tão transitório e fútil
desafios dos corajosos
que não temem a mais completa solidão

viver hoje é isso
arriscar-se em dizer não
perante um mundo que diz sim a tudo
sem perdão nem compaixão

ouvir, sentir, falar
ninguém quer te ver
ser único em tempos de vários
é ser fraco herói perante a fortaleza dos covardes



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lapsos do bem e do mal




Somos seres que possuem potencial para o bem e para o mal. Quando pequenos já entendemos o que os outros querem de nós e fazemos coisas para ganhar algo em troca e preencher nosso ego com carinhos, promessas, mentiras e algumas verdades.
Conforme crescemos, aprendemos outros “truques” que usamos para conseguir as coisas que queremos, licitas ou não. Com base nessas conquistas, a cada nova etapa da vida, vamos tomando rumos que somente anos depois poderemos olhar para trás e nos arrepender ou não.
Mas o que nos faz olhar para trás? O que nos faz refletir? Quando  estamos felizes,  geralmente não temos tempo para isso, mas quando algo ruim ocorre, ou quando não conseguimos o que queremos, olhamos para trás e muitas vezes vem o arrependimento.

Questões sobre o tempo - Mas tem alguma coisa errada nisso. Olhamos para o passado para tentar melhorar o presente e o futuro. Mas o passado não existe fisicamente. Ele esta apenas em nossas mentes. O futuro também não existe, esta apenas em nossos sonhos e desejos. E o presente? Esse será que existe? No momento que escrevo a palavra “palavra” ela passou de futuro para presente e num segundo depois já é passado.  Isso quer dizer que o presente também é efêmero, ele é algo que quanto menor vemos, menos existe.  Assim um segundo praticamente não existe, enquanto um dia já é algo mais mensurável e posso dizer que hoje é o meu presente, mas quando olho para o segundo, esse já passou e já é passado.
Esse exercício meio maluco sobre o tempo nos faz pensar quantos segundos desperdiçamos com coisas tolas e sem importância. A soma desse tempo poderia ser aplicada em algo bom, que gerasse frutos para nós e a humanidade. Mas sempre estamos correndo para um futuro sem sentido e muitos não conseguem evitar essa dinâmica, pois estão presos em promessas, mentiras e poucas verdades da vida moderna.

"Releases" da vida  - Vejam os ícones do mundo moderno. São homens e mulheres que pensam por “releases”, ou seja, tudo o que temos precisa ter uma nova versão “lançada” no mercado para substituir uma que já não atende mais a insanidade humana. Antigamente isso ocorria após alguns anos, ou até mesmo décadas. Mas hoje isso já ocorre em alguns setores quase que mensalmente, ou até diariamente. A vontade por algo novo a cada segundo, faz todos correrem uma corrida sem um  destino, sem uma faixa para romper e chegar no final, onde os vitoriosos e os perdedores  vão descansar. Não há descanso para ninguém.

Voltando a ideia que não existe o tempo, pois o segundo é o futuro que virou passado a cada novo segundo (louco não?),  temos uma brecha temporal muito pequena, e que se for diminuindo cada vez mais, podemos dizer que o tempo micro não passa. Mas se ele não passa porque estamos tão cansados de correr atrás de algo que não sabemos o que é? Um paradoxo como esse nos trás angustia, e sem saber o porquê, nos vemos tristes, sem força para acordar e começar tudo de novo a cada novo dia. 

A Vida passa - Um dia olhamos no espelho e vemos alguém velho, que não se parece com aquele jovem que já fomos cheios de energia, vontade de vencer, sem medos bobos. Daí  nos perguntamos: mas o tempo não passa na minha mente, porque então meu corpo envelheceu? Dentro de mim penso ter ainda meus quinze ou dezessete anos, mas no espelho, as rugas e dobras do corpo nos dão um choque. O segundo que acreditamos não passar, na verdade somados e multiplicados por bilhões, nos dão essa surpresa da vida. Ela passa, e a cada novo segundo podemos tomar uma nova decisão e um novo rumo é dado a tudo que nos cerca.

O segredo esta no segundo, no detalhe, na pequena decisão, que às vezes pode parecer boba, como aceitar uma droga “apenas uma vez”, seguir uma má companhia “apenas uma vez”, não fazer nossas obrigações “somente hoje”. Não amamos com todas as forças em cada momento, acreditando que um dia, lá no futuro (que não existe) haverá “um” momento para isso.

Somos seres sem compromissos verdadeiros nas coisas do bem, sem dedicação ao próximo, sem desejos sinceros e sem amor pleno e verdadeiro. Queremos apenas o prazer aqui e agora e da maneira mais fácil possível.

Os segundos se vão, nossa força se vai e de repente tudo se inverte: olhamos para nossa mente e encontramos o sonho e o desejo juvenil no “passado” e não no futuro. E quando olhamos para o futuro...nada vemos, senão,  um desejo cruel de descansar.
Descansar do trabalho tedioso e mesquinho, descansar das pessoas que nos usam para terem o  que querem, descansar do peso das responsabilidades que muitas vezes não são nossas. Descansar o corpo e a alma da dor de tudo que nos foi tirado.

Mas essa talvez não seja a solução. Descansar pode ser apenas uma ilusão, um desejo de um corpo mal cuidado e sem o vigor de um menino(a). Ma lembre-se, a mente não envelhece, ela esta dentro daquela pequena brecha temporal, onde o tempo não existe.

O segredo então é manter o menino(a) interior vivo, sonhador e sem medos.  Deixa-lo curtir cada segundo, pois se você viver intensamente cada segundo, jamais envelhecerá sua alma divina.



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Letargias disléxicas: um mal da pós-modernidade


Acredito que os termos de meu título não são de conhecimento geral. Mas são extremamente pertinentes para o que quero ilustrar.
Letargia:  perda de sentidos e estado de suspensão que simula a morte.
Dislexia: dificuldade de associação que dificulta o aprendizado, como a alfabetização, localização espacial, etc;
Pós-modernidade: situação temporal da humanidade, onde existe a coexistência entre o moderno e o contemporâneo.
Dicionário posto, vemos que atualmente muitos de nós, inclusive eu, sofrem desse  mal que deliberadamente nomeei de “Letargia Disléxica”, que se resume em: dispersão parcial das coisas importantes, vivendo parcialmente e de forma incompleta cada momento da vida.
Para digerir melhor o assunto vamos por partes:
Síndrome da comunicação de massa: vivemos em um mundo de alta complexidade tecnológica que facilitam a comunicação social entre as pessoas e empresas. São emails, SMS´s, internet, facebook, i-tudo (ipad, iphone, etc), smart phones, televisores 2D, 3D, high definition, qualquer musica em qualquer lugar, videogames de última geração, acesso rápido a qualquer informação do bairro, cidade, mundo, universo. Tudo em velocidade 3G, 4G e não sei mais quantos G´s vem pela frente. A ânsia de saber e conhecer tudo nos faz abraçar as tecnologias ao ponto de quando esquecemos nossos celulares em casa, parece mais que faleceu alguém na família...puro desespero. A tecnologia virou uma extensão de nossos corpos e de nossa mente. Faça um teste: entre em um ônibus ou trem e conte quantas pessoas NÃO estão conectadas, seja ouvindo musica, mandando msg´s ou falando ao celular. A tecnologia da comunicação esta disseminada entre todas as “castas” de nossa sociedade, ricos, pobres, velhos, crianças, de qualquer nacionalidade ou raça.
Quando um desastre de trem ocorre na China, em poucos segundos, ouve-se comentários do assunto em todas as redes conectadas pelo mundo e você fica sabendo, mesmo sem querer saber desse fato.
Somos bombardeados por milhares de informações por dia, muitas delas que não vão fazer a menor diferença em nossas vidas, mas a “síndrome da comunicação de massa” não permite que eu ou você fiquemos alheios a isso. Isso gera a dispersão em nossas mentes, pois consumir tudo isso gera um enorme esforço. No final de um dia de trabalho,  estamos cansados sem saber direito o porque, mas nossa mente sabe o quanto teve de “malhar” para ficar antenada com tudo que ocorre a nossa volta.
Além das noticias, outro ponto importante são os derivados na mídia das massas, como programas de TV ou conteúdos da internet. Nunca vi tanta variedade em programas, filmes, series e conteúdo na web, como hoje em dia. Há 35 anos atrás, tínhamos 3 grandes estreias de filmes  no ano, hoje temos 10 ou mais estreias por semana, sendo impossível acompanhar todos os lançamentos (coitado dos críticos de cinema). Não é por acaso que vivemos “zapeando” o controle remoto, passando por diversos canais, sem parar para assistir nenhum deles por mais de 5 minutos (ou menos para os mais ansiosos). É uma busca pelo novo que não tem fim, uma ânsia de algo que nos complete e que não sabemos onde está, mas com certeza o controle remoto não irá nos levar até lá;
Sofremos de uma “letargia” perante os instrumentos de comunicação de massa, como zumbis que devoram carne fresca, insaciavelmente e sem uma razão.
Dispersão no ambiente de trabalho: as ferramentas de comunicação estão no ambiente de trabalho e como no ambiente social ajudam a causar a dispersão compulsiva. Canso de ver reuniões de trabalho com o seguinte cenário: um orador falando um assunto importante para uma plateia dispersa, alguns falam ao celular, outros navegam no smart phone ou notebook, e lá no canto vemos um ouvinte quieto e pensativo sem interação – motivo: esqueceu o celular em casa e está em desespero de causa pensando quem poderá estar ligando ou mandando msg para ele naquele momento. No fim da reunião, poucos entenderam o que foi dito, pouco foi debatido e provavelmente quem estava presente só com o corpo (pois a mente estava em outro plano) vai questionar por email depois tudo o que foi debatido na reunião. Resumindo: marca-se outra reunião de “alinhamento” e tudo se repete de novo.
Outra situação: você é chamado pelo seu chefe em sua mesa para falar de um assunto importante. Do momento que você senta, já começa a dispersão. O chefe esta lendo um email no computador e enquanto fala tenta escrever. Ele faz a introdução do assunto e te pergunta uma coisa, você responde e ele vai falando enquanto escreve outra msg “hum hum...sei...hum..hum”. O chefe atende uma ligação, depois duas, depois três, até que tira o telefone do gancho falando que “assim não dá”. Retoma o assunto e chega uma msg no celular, ele tenta fingir que não ouviu o bip e tenta continuar a conversa, novo bip e ele pede um segundo. Vê a msg e diz, essa eu tenho de responder. Manda outra msg e retoma o assunto, mas já pulando uma parte. Você não entendeu nada ainda. Entra alguém na sala sem bater e fala que tem um email critico na caixa do chefe. Ele interrompe de novo e lê o email. Levanta e sai falando que o “bicho tá pegando” e que volta a falar com você depois. Resumindo: você pensa que se seu assunto era critico e teve esse tipo de tratamento, imagine um assunto trivial;
Isso ocorre o tempo todo nos ambientes empresariais, consultórios médicos, atendimentos públicos, lojas, etc; as pessoas não conseguem mais se concentrar em um único assunto por vez até concluí-lo. Tudo é por fragmentos e de novo temos um enorme esforço para juntar os pedaços lançados durante todo o dia e criar um único argumento que faça sentido e tenha um valor para nós. Muitas vezes não conseguimos e vem aquele enorme sentimento de culpa, de incompetência, de descaso com nossa pessoa e nosso profissionalismo.
Temos a impressão que somos “dislexos” perante os assuntos do cotidiano, sejam eles simples ou complexos, não conseguimos dar foco em nossas conversas com amigos de trabalho, parentes, filhos, cônjuges. Não conseguimos nem ouvir e entender nosso próprio “eu”  interior, pois o mundo externo nos provoca o tempo todo, sem pausa, sem descanso, sem dó.

Mas de quem é a culpa desse enorme movimento de “Letargias Dislexicas”?
Não coloque a culpa em seus chefes, na empresa na qual você trabalha, nas mídias de massa e muito menos no colega que não te ouve. Isso é mais profundo que encontrar um culpado. No meu modo de ver, sofremos desse mal devido a nossa própria condição de seres inteligentes e que possuem a enorme capacidade de adaptação.
Experimentamos coisas que nos fazem sentir mais fortes, mais inteligentes, mais onicientes do mundo ao nosso redor, mas como o homem que ficou no deserto dias sem comer e sem beber, quando vemos alimento, nos afogamos nele até passarmos mal de tanta informação.
Somos esponjas que não tem controle daquilo que sugam e se todos nesse circulo tem a mesma propensão, o ciclo se fecha e o mundo gira sem parar, em torno dessa obcessão pelo poder total, pelo desejo de terminar tudo o que foi iniciado, a qualquer preço. Não importa quem começou o jogo, o que importa é terminar da forma mais rápida, econômica e lucrativa possível, pois outros projetos virão, outras formas de ganhar dinheiro virão, outras formas de consumo virão e a roda precisa girar sempre.
Mas tudo é finito no mundo material. O mundo está sofrendo dessa síndrome do consumo sem fim. O desperdício gerado por esse consumo desenfreado esta acabando com as riquezas naturais e deixando o planeta pelado, sem perspectivas, sem futuro. A Letargia disléxica é apenas um sintoma desse consumo voluptuoso, desse desespero do poder sem medida. Ela apenas mostra que algo esta errado, que não podemos nos deixar levar pela síndrome, que podemos frea-la enquanto existe tempo para isso.
Viver e deixar viver. Esse pequeno detalhe que nos esquecemos de pensar no dia-a-dia e que não tem nada de religioso, mas de humano. Pensar no próximo é pensar em detalhes, desde ouvir seu amigo que fala, sem interrupções, até reduzir a quantidade de gases poluentes na atmosfera. É saber ouvir o que o mundo pede, cada assunto com sua importância e sem essa ânsia desesperada em consumir, seja uma informação, uma arvore, ou a vida de toda raça humana.