Acredito que os termos de meu título não são de conhecimento geral. Mas são
extremamente pertinentes para o que quero ilustrar.
Letargia: perda de sentidos
e estado de suspensão que simula a morte.
Dislexia: dificuldade de
associação que dificulta o aprendizado, como a alfabetização, localização
espacial, etc;
Pós-modernidade: situação
temporal da humanidade, onde existe a coexistência entre o moderno e o contemporâneo.
Dicionário posto, vemos que atualmente muitos de nós, inclusive eu, sofrem
desse
mal que deliberadamente nomeei de “Letargia
Disléxica”, que se resume em: dispersão parcial das coisas importantes, vivendo
parcialmente e de forma incompleta cada momento da vida.
Para digerir melhor o assunto vamos por partes:
Síndrome da comunicação de massa:
vivemos em um mundo de alta complexidade tecnológica que facilitam a
comunicação social entre as pessoas e empresas. São emails, SMS´s, internet,
facebook, i-tudo (ipad, iphone, etc), smart phones, televisores 2D, 3D, high
definition, qualquer musica em qualquer lugar, videogames de última geração, acesso
rápido a qualquer informação do bairro, cidade, mundo, universo. Tudo em velocidade
3G, 4G e não sei mais quantos G´s vem pela frente. A ânsia de saber e conhecer tudo
nos faz abraçar as tecnologias ao ponto de quando esquecemos nossos celulares
em casa, parece mais que faleceu alguém na família...puro desespero. A
tecnologia virou uma extensão de nossos corpos e de nossa mente. Faça um teste:
entre em um ônibus ou trem e conte quantas pessoas NÃO estão conectadas, seja
ouvindo musica, mandando msg´s ou falando ao celular. A tecnologia da
comunicação esta disseminada entre todas as “castas” de nossa sociedade, ricos,
pobres, velhos, crianças, de qualquer nacionalidade ou raça.
Quando um desastre de trem ocorre na China, em poucos segundos, ouve-se
comentários do assunto em todas as redes conectadas pelo mundo e você fica
sabendo, mesmo sem querer saber desse fato.
Somos bombardeados por milhares de informações por dia, muitas delas que não
vão fazer a menor diferença em nossas vidas, mas a “síndrome da comunicação de
massa” não permite que eu ou você fiquemos alheios a isso. Isso gera a
dispersão em nossas mentes, pois consumir tudo isso gera um enorme esforço. No
final de um dia de trabalho,
estamos
cansados sem saber direito o porque, mas nossa mente sabe o quanto teve de “malhar”
para ficar antenada com tudo que ocorre a nossa volta.
Além das noticias, outro ponto importante são os derivados na mídia das
massas, como programas de TV ou conteúdos da internet. Nunca vi tanta variedade
em programas, filmes, series e conteúdo na web, como hoje em dia. Há 35 anos
atrás, tínhamos 3 grandes estreias de filmes
no ano, hoje temos 10 ou mais estreias por
semana, sendo impossível acompanhar todos os lançamentos (coitado dos críticos de
cinema). Não é por acaso que vivemos “zapeando” o controle remoto, passando por
diversos canais, sem parar para assistir nenhum deles por mais de 5 minutos (ou
menos para os mais ansiosos). É uma busca pelo novo que não tem fim, uma ânsia de
algo que nos complete e que não sabemos onde está, mas com certeza o controle
remoto não irá nos levar até lá;
Sofremos de uma “letargia” perante os instrumentos de comunicação de massa,
como zumbis que devoram carne fresca, insaciavelmente e sem uma razão.
Dispersão no ambiente de trabalho:
as ferramentas de comunicação estão no ambiente de trabalho e como no ambiente social
ajudam a causar a dispersão compulsiva. Canso de ver reuniões de trabalho com o
seguinte cenário: um orador falando um assunto importante para uma plateia dispersa,
alguns falam ao celular, outros navegam no smart phone ou notebook, e lá no
canto vemos um ouvinte quieto e pensativo sem interação – motivo: esqueceu o
celular em casa e está em desespero de causa pensando quem poderá estar ligando
ou mandando msg para ele naquele momento. No fim da reunião, poucos entenderam
o que foi dito, pouco foi debatido e provavelmente quem estava presente só com
o corpo (pois a mente estava em outro plano) vai questionar por email depois
tudo o que foi debatido na reunião. Resumindo: marca-se outra reunião de “alinhamento”
e tudo se repete de novo.
Outra situação: você é chamado pelo seu chefe em sua mesa para falar de um
assunto importante. Do momento que você senta, já começa a dispersão. O chefe
esta lendo um email no computador e enquanto fala tenta escrever. Ele faz a
introdução do assunto e te pergunta uma coisa, você responde e ele vai falando
enquanto escreve outra msg “hum hum...sei...hum..hum”. O chefe atende uma
ligação, depois duas, depois três, até que tira o telefone do gancho falando
que “assim não dá”. Retoma o assunto e chega uma msg no celular, ele tenta
fingir que não ouviu o bip e tenta continuar a conversa, novo bip e ele pede um
segundo. Vê a msg e diz, essa eu tenho de responder. Manda outra msg e retoma o
assunto, mas já pulando uma parte. Você não entendeu nada ainda. Entra alguém
na sala sem bater e fala que tem um email critico na caixa do chefe. Ele interrompe
de novo e lê o email. Levanta e sai falando que o “bicho tá pegando” e que
volta a falar com você depois. Resumindo: você pensa que se seu assunto era
critico e teve esse tipo de tratamento, imagine um assunto trivial;
Isso ocorre o tempo todo nos ambientes empresariais, consultórios médicos,
atendimentos públicos, lojas, etc; as pessoas não conseguem mais se concentrar em
um único assunto por vez até concluí-lo. Tudo é por fragmentos e de novo temos
um enorme esforço para juntar os pedaços lançados durante todo o dia e criar um
único argumento que faça sentido e tenha um valor para nós. Muitas vezes não conseguimos
e vem aquele enorme sentimento de culpa, de incompetência, de descaso com nossa
pessoa e nosso profissionalismo.
Temos a impressão que somos “dislexos” perante os assuntos do cotidiano,
sejam eles simples ou complexos, não conseguimos dar foco em nossas conversas
com amigos de trabalho, parentes, filhos, cônjuges. Não conseguimos nem ouvir e
entender nosso próprio “eu”
interior,
pois o mundo externo nos provoca o tempo todo, sem pausa, sem descanso, sem dó.
Mas de quem é a culpa desse enorme
movimento de “Letargias Dislexicas”?
Não coloque a culpa em seus chefes, na empresa na qual você trabalha, nas mídias
de massa e muito menos no colega que não te ouve. Isso é mais profundo que
encontrar um culpado. No meu modo de ver, sofremos desse mal devido a nossa
própria condição de seres inteligentes e que possuem a enorme capacidade de
adaptação.
Experimentamos coisas que nos fazem sentir mais fortes, mais inteligentes,
mais onicientes do mundo ao nosso redor, mas como o homem que ficou no deserto
dias sem comer e sem beber, quando vemos alimento, nos afogamos nele até
passarmos mal de tanta informação.
Somos esponjas que não tem controle daquilo que sugam e se todos nesse
circulo tem a mesma propensão, o ciclo se fecha e o mundo gira sem parar, em
torno dessa obcessão pelo poder total, pelo desejo de terminar tudo o que foi
iniciado, a qualquer preço. Não importa quem começou o jogo, o que importa é terminar
da forma mais rápida, econômica e lucrativa possível, pois outros projetos
virão, outras formas de ganhar dinheiro virão, outras formas de consumo virão e
a roda precisa girar sempre.
Mas tudo é finito no mundo material. O mundo está sofrendo dessa síndrome do
consumo sem fim. O desperdício gerado por esse consumo desenfreado esta
acabando com as riquezas naturais e deixando o planeta pelado, sem
perspectivas, sem futuro. A Letargia disléxica é apenas um sintoma desse
consumo voluptuoso, desse desespero do poder sem medida. Ela apenas mostra que
algo esta errado, que não podemos nos deixar levar pela síndrome, que podemos
frea-la enquanto existe tempo para isso.
Viver e deixar viver. Esse pequeno detalhe que nos esquecemos de pensar no
dia-a-dia e que não tem nada de religioso, mas de humano. Pensar no próximo é
pensar em detalhes, desde ouvir seu amigo que fala, sem interrupções, até
reduzir a quantidade de gases poluentes na atmosfera. É saber ouvir o que o
mundo pede, cada assunto com sua importância e sem essa ânsia desesperada em
consumir, seja uma informação, uma arvore, ou a vida de toda raça humana.