A memória sempre nos trai e nos leva para horizontes que jamais pisamos e de
lá nos arremessa no precipício afora. Ela nos faz imaginar coisas que jamais
vivemos, e somente quando comparamos as memórias nossas com a de outros que
viveram o mesmo momento é que encontramos as diferenças. Nós criamos muitas
vezes algo que não existiu exatamente daquela forma.
Então, será que tudo o que imaginamos ter ocorrido, não é mero fruto da
transformação de nossos desejos? O primeiro beijo, o primeiro pedaço de bolo de
chocolate, a primeira perda...será que são realmente daquela forma que nossa memória
registrou com tanta força em nossa mente e em nosso coração?
Lembro-me de fatos recentes com dificuldade, parece que o tempo passa rápido
demais, mas ao mesmo tempo não consigo registra-lo com tanta clareza como as
memórias de passados mais antigos. Lembranças da infância, das descobertas, do
vento no topo das arvores...lembro do primeiro amor, e sem saber o que tinha me
atingido, não parava de pensar na menina que nem sabia o nome. Parecia uma
doença, um vírus que havia me contaminado, e sem saber a cura, apenas sonhava
com um beijo, um toque, um trocar de palavras, para que pudesse ouvir sua doce
voz.
O tempo passou e outros amores chegaram, um beijo escondido, outro
roubado, outro perdido para sempre. Quer maior saudade do que o beijo que você
nunca se teve, da boca que jamais tocou, da pele que jamais sentiu? Sim, o
desejo é o criador supremo da saudade de algo que jamais aconteceu.
Nisso retomo a questão da memória, que mistura esse desejo inexistente com a
realidade longínqua e dai não sabemos direito o que foi tocado ou apenas
imaginado tocar. Somos falsetes que idealizam momentos únicos. Quantas vezes
você não desejou estar perto de alguém, apenas para roubar um naco de perfume,
um toque involuntário de pernas, um suspiro suave, que perto do ouvido marcou
para sempre sua imaginação.
Pequenos e deliciosos momentos, que sexo, drogas ou dinheiro algum pode
fazer acontecer ou trazer de volta.
Viver feliz é um pouco disso, garimpar sensações sinceras, guardando no
depósito da alma para poder usar nos momento de dor, de solidão e abandono. É
fazer como o camelo, que tem sua reserva de gordura para momentos de falta, e
dela se alimenta para não perecer no calor do deserto.
Existem momentos que estamos nesse deserto, mesmo que rodeados de festa e
falsa alegria. Nesses momentos quero beber da corcova da memória, que um dia
guardei com carinho e que para sempre há de me alimentar da mais pura
felicidade.