Quando comecei escrever esse blog, coloquei em minha
apresentação algumas coisas que eu achava que eu era: poeta, diretor, fotógrafo,
gerente de projetos, teólogo, dançarino e outras coisas que nem me lembro.
Acreditava que colocando algumas nomenclaturas das coisas que eu fazia, seria mais
bem aceito por meu pretenso publico (que achava que ia ter). Alguns anos depois
(e ainda sem muito publico), relembro disso e me sinto menos. Menos por achar
que eu era mais. Mas aprendemos com os erros, e com os devaneios de querer ser
um semideus, que tudo faz e tudo acontece.
Hoje, amadureci um pouco mais, e nesse momento penso que não
somos aquilo que fazemos. Parece um pouco tolice tal afirmação, mas eu digo e
repito, o homem não é aquilo que ele faz, mas o que ele faz é um pouco dele, ou
seja, cada coisa que fazemos deixamos ali um pouquinho de nós. Esse pensamento
muda toda a relação com nosso trabalho, amizades e afetividades.
Quando vemos uma criança brincando ou conversando, em sua
pureza, fica mais fácil entender isso. A criança ainda não “faz nada”, não é médica,
não é gerente, não é diretor, nem presidente. Ela é apenas uma criança, apenas
um pequeno ser humano com amor para dar e dividir seu tempo com aquelas pessoas
que lhe dão afeto. Daí, ela vai sendo construída, nutrindo seus talentos e um
dia “fazendo” algo mais importante do que brincar (às vezes acho que esse algo
não existe). Daí, vira médico, vira gerente, vira diretor e esquece o que é ser
humano. O titulo é maior do que o “Ser” Humano.
O que é ser alguém então? Num mundo que preza o “TER” alguém,
o “TER” o titulo, o “TER” o prazer acima
de tudo?
Ser alguém é: “depositar
na alma do outro um pouco do que lhe foi depositado por quem um dia cruzou seu
caminho, mas com uma pitada de você”. Vixi...agora embolou tudo mesmo. Primeiro
disse que eu era um semideus, depois disse que o que fazemos não é o que somos,
e agora que eu dou para todo mundo? Pirei de vez? ou estou apenas enchendo “linguiça”
com assuntos que nada tem a ver?
Bom é um pouco de tudo, ou seja, eu não sou normal, como
todos também não o são, lembre-se: “de
perto” ninguém é normal.
Vou explicar melhor meu pensamento de hoje. Ele se resume em
uma coisa: fazer pão.
Calma, não parem de ler agora. Vou explicar.
Há uma semana redescobri algo que minha mãezinha já fazia há
anos e Egípcios, Hebreus e Franceses faziam há séculos: o pão.
Mas
o que tem a ver o pão com a filosofia do “TER” e do “SER”? Para quem já leu
outros artigos meus, eu gosto de fazer referencias entre a comida e outros assuntos,
como o amor, projetos e outras “coisitas” (vejam- Mão na massa: tudo uma questão de tempo
(2011)).
Retornando...o
pão é a essência da vida. Não é a toa que a maior oração cristã se chama “Pão Nosso”...não
é isso? Há desculpe...é “Pai Nosso”, mas na segunda estrofe tem “”O Pão Nosso de
cada dia nos daí hoje...”. Porque Jesus não disse, o bolo nosso, o fundue
nosso, ou a pinga nossa nos daí hoje (muitos iam gostar !!). Mas não, ele fala
do pão, que alimentou o povo hebreu por milênios e até hoje é uma dos
principais alimentos da humanidade.
Eu
já fazia pão com fermento industrial, mas por “acaso” descobri que existe um
pão mais natural, com fermentação natural e quis saber um pouco mais. Não vou
aqui ter a pretensão de ensinar a fazer pão, pois isso daria outro artigo ou
até um livro, de tanto assunto que isso pode gerar, mas quero mostrar que as o
processo da natureza é sábio e nós é que as vezes nos esquecemos disso.
O
fermento natural é feito com farinha integral, suco de abacaxi e UMA DAS COISAS
MAIS CARAS DO MUNDO ATUALMENTE: O TEMPO.
Isso
mesmo, o tempo de fazer pão natural hoje é o mesmo tempo de milênios atrás, a
natureza não mudou seu tempo, mas nós sim. Desaprendemos que o ciclo das coisas
precisa ser seguido para podermos ter algum saboroso para nosso desfrute. Em
culinária, como na jardinagem caseira e outros tipos de afazeres “clássicos”, o
tempo é o ingrediente mais importante.
O
fermento é a essência do pão, ele o faz crescer e ter todo tipo de fermentação
complexa das leveduras e açúcares necessários para criar o pão. O fermento é
feito em etapas, cada uma levando de 24 a 48 horas, onde uma pequena porção de
farinha com suco de abacaxi propicia a criação de algo maior. Alimentando na
dose certa e no tempo certo, o fermento toma forma e nasce e a partir daí ele
pode durar anos. Sim, anos, tudo dependendo de como você cuida dele e o
alimenta corretamente. Ele é vivo. E gera vida em cada fornada de pão
quentinho.
Então
quando digo que “Ser alguém é depositar na alma do outro um pouco do que lhe
foi depositado por quem um dia cruzou seu caminho”, me utilizo da linguagem do fermento, do pão,
que cresce e se multiplica na medida que você sabe usa-lo, alimenta-lo com
coisas boas e novamente doar, sem pedir nada em troca.
Esta
no ar. Todo tipo de micro-organismo complexo, que vai até a levedura e a faz
fermentar, crescer e se multiplicar. Como na vida, está em nossa mente, no espírito
da criança que mora em nós, o segredo de ser feliz e fazer do nosso “próximo”
pessoas melhores. Basta “SER” mais do que “TER” e ter tempo para doar o pouco
que você “FAZ” para que outros possam “SER”.
E o ciclo se repete, assim como a
levedura que fermenta com o ar, as pessoas que ajudamos com o nosso fazer “de
graça”, se tornam atores de novos atos de doação e isso não tem fim.
E
o “pão” que alimenta a Alma irá ser maior e aplacar a “fome” que vemos em cada canto, em cada
coração amargurado.
Sim, não quero mais ser um semideus perdido, quero
ser padeiro, daquele que alimenta o corpo e a alma.