sábado, 5 de janeiro de 2013

Abelha no pé



Hoje uma abelha pousou em meu pé. Não quis mata-la, pois sou contra matar qualquer ser vivo sem um motivo maior (só uma ressalva: Pernilongos não fazem parte dessa regra). Entenda “motivo maior” como sobrevivência minha ou dos que me cercam. Pode parecer uma visão um tanto “fria e calculista”, mas reflete o que a maioria de nós faz sem pensar. Matamos formigas, abelhas, pernilongos (esses sempre), bactérias, vírus, bois, galinhas, avestruz e outros bichos, para defesa ou alimentação.

Mesmo que não matemos com nossas próprias mãos, fazemos parte do processo de morte que cercam a cadeia alimentar, só que “terceirizamos” a punhalada final e o dilaceramento dos bichos para aqueles que têm coragem ou necessidade para tanto. 

Não sou vegetariano e tão pouco defensor “xiita” de animais, mas se fosse para matar com as próprias mãos um animal para comer, com certeza seria vegetariano convicto.
Bom, depois dessa explanação, vocês viram que na verdade sou um “carnívoro covarde” e que uso de outros para obter o prazer do alimento fácil e suculento na mesa. Triste, mas é o que a maioria de nós é:  um “consumidor voraz”, mesmo sem querer.

Mas qual a diferença entre esmagar sem querer uma formiga, ou comer “sem saber” um animal que veio da “terra do nunca” do supermercado?

Somos na essência predadores. Como toda natureza é. Diariamente animais devoram outros animais para sobreviver, sem dó, pois na cadeia alimentar essa palavra não existe. A sabedoria milenar garante a reposição dos mortos para dar garantia da sobrevivência das espécies, mas tudo dentro de um ciclo natural, onde a vida renasce depois da morte.

Essa relação de reposição também existe na natureza corporativa das empresas. Somos todos elementos que compõe a sofisticada engrenagem que faz girar a economia moderna. Assim como a abelha que colhe o pólen para alimentar a cadeia da colmeia, somos operários que trabalham para o sustento da nossa “colmeia” corporativa.

Nascemos para isso, pois desde pequeno nos perguntam o que seremos quando crescer. Quer dizer:  Que tipo de operário você vai ser quando crescer? Uma abelha operária (trabalhos braçais e intelectuais), uma abelha soldado (militares e afins), uma abelha rainha (empresários,  políticos e afins)? 

Nessa cadeia, somos ao mesmo tempo a essência e o descarte. Num dia somos a coisa mais importante para o lucro da corporação, no dia seguinte somos um número na lista de demitidos. Lembre-se de casos que vocês já viram: o diretor “fodão” de hoje é o desempregado “fudido” de amanhã, temporal, necessário enquanto dure. E isso não é característica de uma ou outra empresa, mas sim do sistema existente hoje.

É claro que demissões e contratações fazem parte do ciclo de vida corporativo, mas o que realço nessa história toda é a semelhança com o mundo “animal”. Quando uma zebra é morta nas pastagens da áfrica pelos leões, a manada de zebras fica nervosa e em pânico por alguns momentos, mas logo já esquecem a “companheira” morta e seguem a vida normal. Quando alguém é demitido, também existe uma algazarra inicial, mas que desaparece com o tempo.

Somos células desse complexo e portanto descartáveis, pois novas células irão nascer. Isso vale para toda pirâmide, desde o presidente  “abelha rainha” até o mais simples operário que colhe o “pólen” atrás de balcões e escrivaninhas.

Mas o ponto principal desse meu devaneio filosófico é exatamente o ponto que nos difere na vida animal na terra. Pergunto: diante disso tudo, o que acontece quando colocamos a corporação “colmeia” acima da vida pessoal?

 São muitos os empresários “fodões” que perdem suas famílias e outros tantos que sofrem de depressão, estresse e grandes vazios da alma diante da vontade de ser o “melhor leão da selva”. Mas o leão de verdade não pensa assim, pois depois que ele mata a zebra e alimenta sua família ele fica “um tempão” sem caçar de novo. A natureza sabe a hora de correr atrás da presa e a hora de deitar debaixo da arvore para descansar.

 O Homem moderno perdeu essa essência do descanso e dos prazeres simples da vida, e fica acumulando “zebras mortas”  que acabam fedendo e deixando um rastro de morte e putrefação por onde passam. Com isso eles deturpam a natureza das coisas, eles obrigam toda a cadeia a se alimentar sem necessidade, destruindo o mundo e fazendo da vida de todos uma corrida sem fim para o nada, ou melhor, para a morte sem renovação.

O “motivo maior”, aquilo pelo qual vale a pena viver,  ficou sem sentido e perdido em textos desvalorizados da Bíblia, Alcorão e do Torá. Somos crias de um sistema que nos esmaga como formigas e que não nos permite valorizar a vida em sua plenitude.

Somos pequenos em todas as “grandezas” que fazemos nessa corrida moderna, pois a essência das coisas esta exatamente na simplicidade e no amor pleno pela vida, seja por um simples inseto (mesmo um pernilongo) até um ser humano cheio de desejos, necessidades e amores.





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