Nossa vida é cheia de pequenos e grandes projetos. Mesmo quando crianças lidávamos com desafios que provocavam nossa criatividade, para poder conseguir o objeto do desejo, como um brinquedo, um passeio, uma aventura em lugares desconhecidos (ir na rua de cima). Nesses pequenos desafios diários a palavra que mais temos medo de acontecer é o fracasso e junto com ele a frustração.
Eu acredito que a culpa disso tudo é de nossa interminável e robusta esperança. Ela que nos obriga a tentar sempre, mesmo quando o sofrimento já dói todo o corpo, inclusive o coração.
Dos projetos da vida que mais sofremos, os projetos de amor são os mais importantes e os que menos temos sucesso. Do namoro platônico da infância e adolescência, aos romances relâmpagos da garotada de hoje, casamentos terminados, traições sem fim, cotidiano que nos sufoca...o projeto de amor já nasce errado. Vejamos algumas variáveis para esse projeto ser um fracasso, antes mesmo de começar. Vamos a elas:
Sorte: Temos de acertar na loteria. Conseguir achar no meio de milhões de pessoas a jóia rara, a tampa de ouro cravejada de diamantes de sua panela de ferro enferrujada. Praticamente uma mega sena acumulada 5 vezes e você com apenas um bilhete para apostar. Bom... eu nunca dei sorte e esse primeiro item do projeto Amor sempre achei impossível cumprir.
Procurar em danceterias, baladas, festas, pessoas que nunca vi mais gorda, e ainda ter sucesso, é algo que não creio ser possível. Os que acreditam em destino que me desculpem, mas a teoria da probabilidade nos condena. Somos seres altamente complexos e encontrar outro ser também altamente complexo onde as variáveis complexas tenham um encaixe perfeito não é sorte...é milagre.
Mas, e aqueles casais velhinhos que se amam até hoje? Como explicar tal amor? Sorte? NÃO. A sorte nas gerações antigas não existia também, mas outra variável a substituía: o conformismo e resiliência. A mulher e o homem poucas vezes se apaixonavam perdidamente e se o fizessem, a família condenava, pois geralmente não era a pessoa que eles tinham escolhido para você. Os casamentos arrumados, a necessidade de estar casado e socialmente aceito trazia um conformismo, que com o passar dos anos e dos filhos, se tornava amor. O amor era resiliente, criado dia a dia, sovado como massa em mármore sofrido, até criar liga e virar pão que alimentava as gerações. Hoje o “fast food” da paixão não permite você nem pensar em criar esse amor...não há tempo para isso. Todo o resto é mais importante: carreira, estudos, bens de luxo, carros caros, apartamentos com churrasqueira na varanda, i-“tudos”, facebook e solidão.
O fator sorte veio então, como uma desculpa para você não ter conformismo. Apostar em algo efêmero e depois jogar fora, pois afinal, não teve sorte mesmo. Para que tentar se ele ou ela não é o seu príncipe ou princesa encantada. A resiliência não existe, apenas a vontade de acabar logo aquilo que ainda nem começamos e partir pra outro bilhete da insana loteria do amor.
Isso me lembra outra variável insana: a aparência e o desejo pelo “Belo”;
Aqueles que possuem boa aparência, herdados pelos genes dos avôs resilientes, são um exemplo atual que o efêmero é algo maior que a verdade da vida. Vou explicar melhor. A sociedade atual valoriza a beleza externa. Quem a possui, ou por herança ou por dinheiro, vive para alimentá-la e fazer dela um poder que domina o mundo atual.
São novelas, shows de “reality”, revistas, internet, tudo valorizando o belo, de quem possui bens e sugerindo que “todos” podem chegar lá. Os feios, magros ou gordos demais, pobres, doentes e fracos são rejeitados, abandonados a própria solidão. Mesmo entre os iguais, entre os feios, não há valorização mutua, pois estão embriagados pelo desejo de ser belo e possuir o belo.
Poucos conseguem fugir dessa armadilha, todos sonham em ter dinheiro, para poder enfim ser belo, ser famoso, ser “alguém”. E esquecemos que o belo é efêmero, cai, quebra, adoece, morre, tanto como o feio. O belo um dia um feio será. Mas o feio se esquece disso e busca se eternizar no belo, mesmo que seja à custa de matar o verdadeiro belo que possuí: o amor incondicional;
As variáveis da complexa arte de amar se somam: sorte + aparência. Quem feio e pobre poderá um dia, entre milhões, conseguir o belo? E se dois feios buscam o belo, eles se anulam, e mesmo que se colocados um na frente do outro, não se enxergam. A cegueira pelo belo afeta a todos. Mas o belo cansa, o belo pelo belo não tem substancia. É bolinho de queijo sem queijo, uma promessa de algo que por ele mesmo se faz pó. Não existe belo verdadeiro sem recheio de vida, de amor, de dedicação e cuidados do ser amado.
Fazer projeto de amor não é fácil. Citei apenas duas variáveis, e existem dezenas de outras tão complexas como essas: paciência, companheirismo, carinho diário, sedução, entrega, criatividade e muito dialogo.
Se existe um projeto de amor, existe também uma necessidade por trás disso. Sem necessidade não há projetos. E a maior necessidade do ser humano é ser admirado como ele é, sem mascaras e sem vitrines enganadoras. É ser compreendido e amado mesmo sendo feio, gordo, magro, chato, raivoso ou amoroso demais.
Poucos são tão resilientes a esse ponto, mas os que conseguem um dia terão pão para muitas e muitas gerações felizes e bem alimentadas. O amor nosso de cada dia.





